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A inteligência artificial transformou completamente o cenário eleitoral. Hoje, é possível criar candidatos que parecem perfeitos ou espalhar mentiras que soam absolutamente verdadeiras. Diante dessa nova realidade, o Brasil tomou uma decisão pioneira: criar regras específicas para regular o uso de IA nas eleições. Vamos entender como funcionam essas normas e por que elas são tão importantes para nossa democracia.
A linha entre o que é real e o que é artificial está ficando cada vez mais tênue. Os deepfakes – vídeos e áudios falsos criados por inteligência artificial – estão cada dia mais convincentes. Essa tecnologia pode literalmente colocar palavras na boca de qualquer pessoa, criando declarações que nunca foram feitas ou situações que jamais aconteceram.

O grande perigo é que esse tipo de conteúdo pode influenciar decisivamente o resultado de uma eleição, manipulando a opinião pública com base em informações falsas que parecem completamente reais.
- Os Conceitos Básicos da Nova Lei
Para entender a regulamentação, precisamos conhecer dois conceitos fundamentais:
- Inteligência Artificial
A lei define IA de forma bem ampla: basicamente qualquer sistema de computador que produza conteúdo ou faça previsões. Essa definição ampla é proposital, permitindo incluir não apenas as tecnologias atuais, mas também aquelas que ainda surgirão.
- Conteúdo Sintético
É qualquer material – imagem, vídeo ou áudio – que foi criado ou significativamente alterado digitalmente, afastando-se da realidade original. É exatamente esse tipo de conteúdo que as novas regras procuram regular.

- A Regra de Ouro: Transparência Obrigatória
A Justiça Eleitoral não optou por proibir completamente o uso de IA. Em vez disso, escolheu focar na transparência. O princípio é simples: quem vota tem o direito de saber se o conteúdo que está consumindo é real ou artificial.
- Como Funciona a Rotulagem
Se uma campanha usar IA para criar ou alterar qualquer conteúdo, é obrigatório avisar de forma clara e destacada:
Áudio: A informação deve ser falada logo no início.
Imagem: Precisa de rótulo visual e descrição em áudio.
Vídeo: Exige aviso duplo – visual na tela e falado no início.

É importante entender que nem toda edição precisa de aviso. A lei diferencia edições simples (como correção de cor ou inserção de vinhetas) de manipulações reais. Apenas quando a IA é usada para alterar significativamente a realidade ou criar conteúdo que nunca existiu é que a rotulagem se torna obrigatória.
- O Que é Absolutamente Proibido?
Além das regras de transparência, a lei estabelece duas proibições absolutas:
- Fabricar ou espalhar fake news: Usar IA para criar ou disseminar informações falsas é terminantemente proibido
- Deepfakes maliciosos: É vedado simular voz ou rosto de pessoas para prejudicar ou favorecer candidaturas
Essas são consideradas as infrações mais graves, com consequências severas.

- Chatbots e Assistentes Virtuais
As campanhas podem usar robôs para tirar dúvidas dos eleitores, desde que:
- Tenham rótulo claro identificando que se trata de um robô.
- Não se façam passar por pessoas reais, especialmente candidatos.
- Mantenham transparência total sobre sua natureza artificial.
Quando uma irregularidade é detectada, a Justiça Eleitoral pode ordenar a remoção imediata do conteúdo para estancar rapidamente qualquer dano.
Para casos mais sérios, como o uso de deepfakes para espalhar mentiras que podem alterar o rumo da eleição, as consequências são máximas:
- Cassação da candidatura (se ainda em campanha)
- Perda do mandato (se já eleito)
O recado é claro: o mau uso da IA pode custar uma eleição inteira.

A Resoluções da Justiça Eleitoral brasileira representam uma escolha consciente entre deixar a tecnologia avançar sem limites ou proteger a integridade do processo democrático. O Brasil optou pela segunda alternativa, adotando uma postura vigilante e restritiva.
Com essa regulamentação, o país se tornou um dos primeiros do mundo a criar regras tão detalhadas para o uso de IA em eleições, estabelecendo um precedente importante para outras democracias. Embora essas regras representem um avanço significativo, elas levantam uma questão fundamental: serão suficientes para proteger o debate democrático dos desafios futuros?
A tecnologia avança rapidamente, e novas formas de manipulação podem surgir. A efetividade dessas normas será testada nas próximas eleições, e possivelmente precisarão ser atualizadas conforme a IA evolui.
O que é certo é que o Brasil deu o primeiro passo importante: reconheceu que a inteligência artificial pode ser uma ferramenta poderosa para o bem ou para o mal na política, e decidiu que é melhor regular do que deixar correr solto. Agora, cabe acompanhar como essas regras funcionarão na prática e se serão capazes de manter a integridade de nossas eleições na era da IA.
Autor: Tiago Carneiro Rabelo
• Analista Judiciário (TJDFT). Especialista em Direito Digital e Processo Civil. Professor da Lei n. 11.419/2006 – Processo Judicial Eletrônico, Direito Digital e Resoluções tecnológicas do CNJ no GRAN.
Graduando CST em Inteligência Artificial no GRAN
Rede social – Instagram: @prof.tiagorabelo
Fonte: Gran Cursos Online

